O Caminho das Azenhas


Este topónimo vilacondense, muito antigo, nada diz para a maioria dos actuais habitantes desta cidade. Para mais, nem sequer há actualmente azenhas; e, a que existe, na margem esquerda do Rio Ave, está localizada em Azurara, um tanto abandonada, já quase não servindo de referência turística, muito embora seja uma jóia antiga, e até lhe tenham destruído as ruínas da casa do moleiro. Esquecemo-nos, porém, que do lado de Vila do Conde, existiram azenhas, junto do açude ou nasceiro, como lhe queiram chamar.
Recuando ao tempo, aí para os meados da década de trinta do século passado, sabemos que houve obras no Mosteiro de Santa Clara, tendo sido dirigidas, em parte, pelo senhor Engenheiro Baltazar de Castro, as quais estão devidamente descritas no “Boletim dos Edifícios e Monumentos Nacionais”, número 14, de Dezembro de 1938. Nele se relata, que a Casa dos Padres foi demolida, bem como, a entrada para o recinto do antigo edifício monástico do século catorze, dando ampla visão, não só ao templo, como ao actual mosteiro, oitocentista. Assim, surgiu a possibilidade de denominar o espaço conseguido, de Largo D. Afonso Sanches, em homenagem ao fundador do Mosteiro da Segunda Ordem Franciscana, construído no local do Castro de S. João. No entanto, como não podia deixar de ser, tudo o mais pertença da casa religiosa em termos de área privada, lhe ficou acautelado e sinalizado, com cruzes em pedra granítica, delimitando a posse do Mosteiro, o mesmo querendo dizer do Estado.
Voltemos, ao Caminho das Azenhas, que era o itinerário das Freiras do mosteiro até às azenhas, ou até ao rio, muito antes da construção da actual Avenida Figueiredo Faria. Este caminho que saía do mosteiro, foi conservado, conforme se constata: no muro de suporte do Largo D. Afonso Sanches, lado poente, existe, desde a sua construção, uma abertura, com cancela, dando seguimento em direcção a sul, flectindo para nascente por altura da Travessa dos Pelames, sempre junto ao monte e mosteiro, e novamente flectindo para o sul na altura em que acaba a Rua dos Pelames e esta entronca com a Avenida Figueiredo Faria, em local, repetimos, marcado com uma cruz, igual às outras que circundam o mosteiro.
Por volta do ano de 1955, o senhor Engenheiro Severino Gonçalves Guerreiro Chaves, Coronel aposentado, trabalhou no apuramento do “perímetro de protecção do monumento”, a que nos vimos a referir. Por pura coincidência, o autor destas linhas serviu-lhe, por vezes, de guia ou ajudante, o que agora, passado tantos anos, lhe dá uma visão segura e nítida do dito Caminho das Azenhas, o qual terminava com um portão férreo.
Sucede que, agora, quem passar na Avenida Figueiredo Faria, verifica que o dito portão, que fechava o referido caminho, desapareceu! No seu lugar surgiu um portão moderno, com um “dístico de acesso a viatura”. Curioso e estranho. Mas, mais estranho e curioso ainda, é que o mencionado terreno está à venda, como fazendo parte integrante do prédio contíguo, quando o é, isso sim, sua confrontação poente.
Não nos parece, que o Estado tenha cedido, seja a que título for, o terreno final do Caminho das Azenhas…
Vila do Conde tem história muito antiga, e zonas especiais monumentais, as quais não podem, nem devem ser, de forma alguma, apropriadas por usurpação, a belo critério de quem quer que seja.
A Quem de Direito, aqui fica o nosso pedido de indagação e esclarecimento, para reposição da legalidade.

Faria Correia
 
 
SCMVC
Himoinsa
 


 

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