TERRAS de Leitura
Viver para contá-la
 

Gabriel Garcia Marquez, o escritor colombiano autor de obras incontornáveis como ‘Cem Anos de Solidão’, ‘Crónica de uma Morte Anunciada’ e ‘Amor nos Tempos de Cólera’, acaba de ver editada em Portugal a sua autobiografia. Trata-se do primeiro volume dos três anunciados, naquilo que se prevê uma obra monumental. Pela amostra de quase 600 páginas deste volume, irá ser algo de monumental. Mas outra coisa não seria de esperar, quando se conhece a vida preenchida que o Nobel colombiano teve, privando com os grandes deste mundo, desde a Finança à Política, passando, obviamente, pelas Artes.
O livro recorda a vida de ‘Gabo’, desde a sua infância passada em Aracataca, até meados dos anos 50 do século passado. Um dos encantamentos deste livro, especialmente para quem está habituado ao estilo de escrito do autor, com pouco, ou quase nenhum discurso directo, é que o relato é feito no mesmo estilo dos romances que escreveu. Se ao lermos algumas das suas obras já nos perguntávamos onde estaria a realidade e onde começaria a ficção, aqui somos enebriados pelo constante cruzamento de citações e referências entre a obra e a vida do escritor.
Logo na página 29, Garcia Marquez escreve: “O comboio fez uma paragem uma estação sem povoado e pouco depois passou em frente da única quinta bananeira do caminho que tinha o nome escrito no portal: Macondo.” Ora aqui está a origem do nome de umas das povoações míticas do atlas da literatura contemporânea: é o nome da cidade onde decorre a acção de ‘Cien Años de Soledad”. Mas há muitas outras: as personagens mais vincadas, especialmente as femininas, parecem ter saído das mulheres da sua família - imortalizadas nos livros através da sua pena e trazidas à vida a cada leitura. Outras citações são conscientes, como quando o autor decide usar numa sua obra, histórias que conhecia (pag. 60).
Com o avançar da obra, o leitor toma conhecimento com o ambiente de ‘crise permanente’ que se vive na redacção de um jornal, com os habituais mergulhos no ‘bas-fond’: álcool, marginais e prostitutas. Depois é o corrupio de saltar de um periódico para outro, de tanto cobrir noticiosamente acontecimentos como redigir crónicas de cinema. Um vida acelerada, preenchida e muito bem contada. E, assim, vamo-nos apercebendo de como se formou o homem e o escritor, quais as suas fontes de inspiração, os seus receios e medos, a resistência familiar à sua vocação, enfim, uma miríade de informações que farão as delícias daqueles que o consideram um dos maiores escritores vivos. Para os que não o conhecem, aqui fica um belíssimo convite para entrar no mundo do mago do ‘realismo mágico’. (A não confundir com outro sul-americano, o ‘alquimista’ Paulo Coelho. Por Favor! )
 

 
 

  TERRAS de Cinema
“Johnny English”
 
Depois de ter conquistado o público e a critica de todo o mundo na televisão com séries, como “Black Adder”, “A Linha Azul” e especialmente “Mr. Bean”, Rowan Atkinson conquista-os através da 7ª arte. Seis anos depois da sua última incursão cinematográfica, Atkinson volta ao cinema no papel de um suposto agente secreto de nome Johnny English. A história começa quando todos os agentes secretos ingleses são mortos no funeral do melhor de todos esses agentes. O problema é então arranjar alguém para proteger as jóias da coroa inglesa e o escolhido é o funcionário governamental, Johnny English, que sonha um dia vir a ser um grande agente ao serviço de sua majestade. Quando as jóias são roubadas por um cidadão francês, Sauvage(John Malkovich), que devido ao facto de ser descendente da linhagem de Windsor, quer reclamar o seu direito ao trono e transformar a Grã- Bretanha numa gigantesca prisão, e é assim que começam os problemas, pois a personagem de Atkinson não é capaz de fazer nada em condições, acabando por só se meter em sarilhos.
O mais recente filme de Peter Howitt( “Instantes Decisivos” ) é uma paródia aos filmes de James Bond, não faltando sequer o genérico inicial com a música da autoria de Robbie Williams.
A personagem, Johnny English, foi criada em 1998 pelo próprio Atkinson, para uma série de anúncios publicitários do banco Barclays.
No elenco marcam presença, para além de Rowan Atkinson, também John Malkovich num papel bastante cómico, especialmente devido ao seu sotaque francês, Natalie Imbruglia, que aqui faz a sua estreia no mundo do cinema, interpreta uma agente que ajuda English e ainda o muito conhecido na Grã-Bretanha, Bem Miller.
Durante o filme são muitas as lembranças proporcionadas por Rowan Atkinson ao personagem de Bean, como as habituais cenas de palhaçadas em frente do espelho da sua casa de banho.
Dentro das comédias, Johnny English é um bom filme, pois os gags são muitos e bons e isso deve-se essencialmente à qualidade de interpretação de Atkinson para a personagem principal. Apesar de com esta figura, Rowan Atkinson não ter tanto pano para mangas como tinha com Bean, ele consegue criar uma boa personagem devido especialmente ao seu desejo em realizar actos heróicos e a sua incompetência em consegui-los concretizar.
Mas o filme poderia ter um nível muito maior, se Rowan Atkinson tivesse continuado a apostar nos seus argumentistas habituais, desde a série “Black Adder” e no filme “Bean- Um autentico desastre”, o que tornaria a personagem mais ao gosto de Atkinson, podendo as semelhanças com Bean serem ainda maiores.
Quem for ver o filme de certeza que se vai desiludir, pois Johnny English não tem a profundidade cómica da outra personagem de Atkinson, o mundialmente famoso Mr. Bean, mas os verdadeiros fãs do actor (que somos cada vez menos, muito devido ao facto de as suas séries já não serem transmitidas na nossa televisão) de certeza que vão adorar as muitas trapalhadas em que este Johnny English se vê envolvido.

***(de* a *****)
Título Original: Johnny English
Realização: Peter Howitt
Intérpretes: Rowan Atkinson, John Malkovich, Natalie Imbruglia
Género: Comédia
Duração: 92mn
Nacionalidade: Grã- Bretanha
 
 
 
    TERRAS de História
  “Expostos ou enjeitados”

Firmino Abel

“O interesse ou indiferença para com a criança não são na verdade característica deste ou daquele período da história. As duas atitudes coexistem no seio de uma mesma sociedade, vencendo uma a outra em dado momento por razões culturais e sociais que nem sempre é fácil distinguir.”
(in História da Vida Privada, Vol III pp.326-Jacques Gélis)

Com a realização do jantar a fim de se angariar fundos para a obra das “Crianças em Risco” que a Santa Casa da Misericórdia pretende instituir e que o prestimoso Lions Clube de Vila do Conde organiza, julgou-se de interesse apresentar uma publicação suplementar da Revista “Santa Casa” cuja temática fosse a criança.
Assim, um pequeno escrito sobre “Expostos ou Enjeitados” enquadrar-se-á dentro daquela temática.
E, ao pensá-lo, logo recordei quatro homens que, por razões diferentes, foram enjeitados e como tal sofreram contrariedades várias com desiguais fins de vida. A História – Literatura, Mitologia e Religião – perpetuou os seus nomes e suas vidas. São eles: Édipo, Rómulo e Remo e Moisés.
Édipo, que foi Rei e voluntariamente se cegou, nascera contra o conselho do oráculo que proibira os pais de ter descendência, é exposto no monte de Citéron e recolhido por um pastor. Mas o que havia previsto o oráculo viria a acontecer. Édipo, quando de maior idade, entrando na cidade de Tebas e intervindo numa desordem mata o pai e comete incesto casando com a mãe. Razão do tresloucado acto de cegar-se. E acabou por ter uma morte feliz reabilitado pelos deuses.
Rómulo e Remo, irmãos gémeos que, conforme a mais divulgada lenda, nasceram dos amores entre a Vestal (sacerdotisa virgem que velava pelo fogo sagrado) Reia Silvia e Marte são lançados numa cesta às águas do rio Tibre por ordem de Amúlio usurpador do trono de Alba Longa ao irmão Númitor, pai de Reia Silvia, que assim procurava fazer desaparecer estes futuros herdeiros legítimos do trono. Aconteceu que aquela cesta encostou a uma das margens do rio e as crianças fossem amamentadas por uma loba e depois pela mulher do pastor Faústulo. Na adolescência matam o usurpador, restituem o trono ao avô Numitor e decididos a fundar uma cidade no lugar onde haviam sido salvos, submetem-se à apreciação adivinhadora do vôo das aves para saber a qual deles caberia a honra de a fundar. Largadas as pombas, o vôo da de Rômulo indicava-o como fundador por predizer as maiores venturas para a cidade. Rómulo demarcou com o arado o lugar sagrado da futura cidade. Remo, não se conformando, soltou esta linha pretendendo exemplificar com este acto a facilidade com que os inimigos se apoderariam da cidade. Rómulo premiou Remo por este sacrilégio com a morte.
(Continua)

 
 
 
    Exposição
“Dos Afectos” de Isabel Lhano


Está patente no Auditório Municipal, até ao próximo dia 11 de Maio, uma exposição de pintura de Isabel Lhano. Após o sucesso da anterior “Afectos”, a pintura vilacondense faz acompanhar a nudez dos corpos de poemas de alguns nomes grandes da poesia portuguesa contemporânea.
São visões de corpos nús, despidos de preconceitos, mas aquecidos por aquilo que o ser humano tem de mais precioso no seu relacionamento comum: os afectos. Os versos ali estão, em contraponto aos corpos, ao lado dos corpos, por cima dos corpos, como que a definir o indefinível. Os corpos, masculinos e femininos, são perfeitos. Como os afectos... Muito embora estes não precisem de corpos assim...
Paulo Cunha e Silva, no catálogo da exposição dá um salto em frente: “Vejo aqui uma perturbante triangulação entre o corpo, o texto e a tela. A poesia não está no corpo (...). Esta pintura não é tatuagem poética. Há uma entidade intersticial, a tela, que funciona como fronteira ligante do processo de Isabel Lhano. Aqueles poemas emolduram a tela, derramam-se sobre ela, ou acantonam-se num quadrado específico concebido para guardar a poesia. Há assim, entre a poesia e o corpo, uma corpoética mediada pela tela - que aqui adquire autonomia, singularidade, até. Esta tela não é só o suporte do casamento entre dois textos (as palavras e as imagens) ela é um cúmplice, um terceiro activo que participa na relação”.

 
 
 
    Curtas Metragens
11.º Festival já está em movimento

A edição deste ano do Festival de Curtas Metragens, a realizar-se entre 29 de Junho a 6 de Julho de 2003, já tem traçadas as suas linhas directoras.
Serão três as ‘Retrospectivas’ a apresentar. A primeira será dedicada à dupla Charles e Ray Eames, considerados dos mais importantes designers Americanos do séc. XX. Mais conhecidos pelo seu contributo nas áreas da arquitectura, do design de mobiliário e equipamento, do design industrial e da fotografia, têm também uma obra extensa no cinema, com uma filmografia de mais de 100 curtas metragens. O Festival apresenta uma selecção da sua obra, com uma particular atenção às suas ligações ao design, à ciência, à tecnologia e à fotografia, numa selecção das curtas metragens em duas sessões de cinema.
Em adição a este programa, será também apresentada uma exposição de design mobiliário – em colaboração com a Vitra e a Sátira – com cadeiras e outros objectos da dupla. Durante o Festival, será também realizada uma conferência sobre a obra de Charles e Ray Eames, com a participação de Eames Demetrios, da Eames Office.
A segunda versará a obra de Eija-Liisa Ahtila, consagrada realizadora e artista multimedia finlandesa, onde será também dado algum destaque aos seus últimos trabalhos na área da instalação vídeo (em 2002, a artista foi alvo de uma retrospectiva integral da sua obra, na Tate Modern, em Londres). O seu filme mais recente ,“Rakkaus On Aare”, foi o vencedor do Grande Prémio Ficção “Cidade de Vila do Conde” na última edição do Festival. Eija-Liisa Ahtila estará presente em Vila do Conde para apresentar a sua obra.
Finalmente, a terceira abordará Mike Hoolboom realizou mais de 40 filmes, que nos falam de um modo simultaneamente universal e pessoal. O seu tema central é o corpo numa visão moderna, objecto de prazer e sofrimento, domínio final do medo, alegria e poesia. O Festival já apresentou alguns dos seus filmes em edições anteriores, e Hoolboom foi também o autor do texto do filme “Beacon”, um dos episódios da série “10” produzida pelo Festival no âmbito do seu 10º aniversário. Mike Hoolboom também estará presente em Vila do Conde, apresentando os seus filmes.
Na secção ‘Work in Progress’, inaugurada na última edição do Festival, apresenta os trabalhos mais recentes de autores cuja obra em curta metragem foi apresentada em edições anteriores. Estes trabalhos, libertos das limitações de suporte e duração exigidas anteriormente no festival, requerem novos espaços para a sua contemplação. Longas metragens, instalações, performance vídeo e musical, intervenções em espaços da cidade, serão de novo objecto de programação nesta secção. A programação completa será apresentada no início do mês de Maio.
A área mais apelativa é a da ‘Competição Nacional e Internacional’. Realizadores e produtores que representam a nova geração do cinema de todo o mundo encontram aqui um espaço privilegiado para mostrar e debater o seu trabalho: ficção, filme experimental, animação e documentário são os géneros em competição que, nos formatos vídeo (BETACAM SP) e cinema (16 e 35 mm), com duração máxima de 60 minutos, completados após 1 de Janeiro de 2002, serão aceites. Data limite de inscrição 15 de Abril 2003 para a competição Internacional e 15 de Maio para a Competição Nacional. 
Finalmente, destaque para o ‘7.º Mercado da Curta Metragem’, com stands de visionamento, o mercado é também um espaço de encontro para distribuidores e compradores. Cerca de 2000 filmes são esperados, cuja informação detalhada será disponibilizada em catálogo específico.

 
 
 
     
PLANTAS E ANIMAIS DA RESERVA ORNITOLÓGICA DE MINDELO

FTritão-palmado (Triturus helveticus)

Caracterização:

Tritão de pequeno tamanho, geralmente com menos de 80mm de comprimento total. Apresenta coloração dorsal acastanhada ou esverdeada, com algumas manchas ou pintas pretas. Esta espécie exibe, tipicamente, uma linha escura lateral na cabeça, com início no focinho que passa sobre os olhos. Tal como os outros tritões da nossa fauna, apresenta dimorfismo sexual, sendo as fêmeas de maior tamanho que os machos. Durante o período de reprodução os machos desenvolvem membranas interdigitais escuras nas patas posteriores, característica que deu origem ao seu nome comum. Neste período pode também ser observado nos machos um filamento preto na parte terminal da cauda.

Conservação

O Tritão-palmado consta no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal como uma espécie insuficientemente conhecida. A Convenção de Berna considera-a como espécie protegida, encontrando-se portanto incluída no seu anexo III.
No nosso país, as populações desta espécie apresentam uma distribuição fragmentada, ocorrendo na região Noroeste de Portugal.
Este tritão está presente na Reserva Ornitológica de Mindelo, podendo ser observado mais facilmente na época de reprodução, altura em que os adultos se encontram na água.
A destruição ou alteração do habitat, nomeadamente dos meios aquáticos que utilizam para a reprodução, por ex.: lagoas, pântanos, represas, e suas áreas circundantes, constituem a principal ameaça às suas populações.

Curiosidades

Esta espécie distingue-se do Tritão-de-ventre-laranja (Triturus boscai), espécie semelhante em tamanho e que habita o mesmo tipo de habitats, por várias características: o Tritão-palmado apresenta uma coloração amarelada no ventre, por sua vez, o Tritão-de-ventre-laranja, tal como o nome indica, apresenta a região ventral de cor laranja vivo ou avermelhada; outras duas características distintivas, únicas do Tritão-palmado, são a linha escura que apresenta na zona dos olhos, e as membranas interdigitais nas patas posteriores dos machos na altura da reprodução.

Cláudia Soares - ICETA - Universidade do Porto (Texto)