Pedro Brás Marques
Director
 
  Portugal no seu melhor
 
É tradição portuguesa considerar que tudo o que se refira à lusa existência vive em permanente angústia. Já todos sabemos: o comércio vai mal, a indústria vai mal, o desporto vai mal, a justiça vai mal, etc, etc. etc. O fatalismo português no seu melhor...
Mas a realidade, graças a Deus é bem diferente. E, para prová-lo, Jorge Sampaio consagrou dez dias da sua vida presidencial na demanda de um ‘Portugal de Sucesso’, através de uma jornada que denominou ‘de inovação’.
A ideia é importada, mas não faz mal... Numa altura em que a nossa auto-estima colectiva anda muito por baixo, o mais alto magistrado da Nação decidiu visitar estabelecimentos de ensino e empresas em que o sucesso é uma constante. Na parte académica visitou, entre outras, uma das melhores escolas europeias na sua área, a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Na outra vertente, a EFACEC e a Iberomoldes, foram algumas das empresas que receberam a visita de Jorge Sampaio.
Entretanto, no curto espaço de dois meses, vimos uma fadista portuguesa, Mariza, receber um prestigiado prémio internacional na área da música popular. Duas equipas portuguesas de futebol estiveram quase a disputar a final de uma grande competição europeia. Na Inglaterra, o cientista João Magueijo anda a pôr em água a cabeça da comunidade científica, ao questionar as teorias de Einstein. Em Setúbal, os responsáveis da Auto-Europa, revelam que os trabalhadores portugueses são os mais assíduos de todas as fábricas que a empresa detém na Europa.
Desta miscelânea de factos, ressalta uma coisa clara: a capacidade de vencer. E isso é algo que, muitas vezes, está afastado de nós, por tradição, comodismo ou ideias mal digeridas. Daí que, por vezes, só funcionemos bem quando há alguém a comandar ou, até, a ordenar. Veja-se o caso do FC Porto, onde quer o treinador quer o presidente são pessoas que sabem o que querem, definem objectivos e levam a equipa a cumpri-los. Repare-se, também, no caso da Auto-Europa, que tem na sua direcção um gestor vindo de outras paragens. Há dois anos, era a pior empresa do grupo, em termos de faltas. Hoje, é a melhor. Jaroslav Holecek, assim se chama o responsável, chegou, identificou o problema e resolveu-o. E não precisou de ameaças nem de despedimentos, antes firmeza e método. E, claro, temos sempre o exemplo dos nossos emigrantes que, lá fora, trabalham mais e melhor do que alguma vez cá fizeram.
Portugal e os portugueses precisam de liderança. Parece ser a única forma do país avançar. O nosso entrevistado, Jorge Laranja, alinha pelo mesmo diapasão. A certo ponto refere: “o português é tão capaz como os outros, se tiver gente capaz de lhe organizar o trabalho (...) precisa de uma liderança, ou melhor, de um conjunto de líderes com essa capacidade”.
Somos capazes. Não haja dúvida. Mas já é tempo de eliminarmos, de uma vez por todas a ideia de que ‘qualquer um é capaz’ e de que ‘ordem’ rima com ‘ditadura’. Em qualquer estrutura tem necessariamente de haver alguém a mandar e outros a serem mandados. Há uns que são melhores do que outros. É uma lei injusta, mas é uma lei da vida. O sonho do igualitarismo - que nunca passou disso mesmo, de um sonho - está sepultado debaixo das ruínas do Muro de Berlim. É tempo de Portugal enfrentar o século que agora desponta de cabeça erguida e confiante. Se uns são capazes, porque é que a maioria de nós também não o será? Não foi precisamente para isto que, há 29 anos, se fez Abril- para termos a liberdade de escolhermos o melhor caminho? Está nas nossas mãos.

PS – Desiludido com o fuzilamento sumário de três cidadãos, por parte do regime cubano, José Saramago rompeu com Fidel Castro. Mais vale tarde do que nunca, dirão alguns. É verdade. Só não se percebe qual é a diferença entre estes assassinatos e as dezenas e dezenas de outros que ocorreram no passado e que o nosso Nobel nunca condenou...
Talvez, agora, Saramago possa dedicar-se de novo à boa escrita, após as desilusões de ‘A Caverna’ e ‘O Homem Duplicado’....