Nascido em 10 de Março de 1954,
filho de um casal vilacondense, Jorge Laranja teve
uma infância que considera “normal”. Estudou no
liceu da Póvoa de Varzim, de onde passou para o
Porto, onde frequentou o ‘Rodrigues de Freitas’. Foi
ainda nesta cidade que obteve o licenciamento em
Economia, pela Faculdade de Economia da Universidade
do Porto.
Início de carreira
Jorge Laranja não escolheu imediatamente Economia:
“gosto muito de Direito. O Direito é, igualmente,
uma ciência com implicações sociais. Naquela altura,
Economia também era. Hoje, já não, estando mais
ligada à matemática e à eficiência de gestão. A
Economia é, em termos de definição, o escolher
recursos para encontrar o melhor nível de vida das
populações.” Para defender esta ideia, o nosso
entrevistado cita Saint-Exupéry: “só interessa mesmo
a economia e a política, pois só estas podem
melhorar o nível de vida dos povos.” Daí que entre
uma e outra, tenha optado pela Economia.
Naquela altura envolveu-se em actividades
estudantis, desde o protesto contra um docente até à
distribuição de panfletos. “Mas nunca cheguei a ser
preso, embora tivesse que fugir dela...”
Para um recém-licenciado na área de Economia não
havia dificuldades em arranjar trabalho e são várias
as ofertas que lhe surgem. Começa por uma empresa de
contabilidade, onde esteve seis meses, transitando
para uma outra, de construção civil, onde trabalha
na área comercial. Decorridos sete anos, e um
desentendimento com a gerência, sai e entra no
sector bancário, onde fica ligado à contabilidade e
gestão de uma grande instituição bancária e onde
permanecerá até à reforma.
Nascimento Político
Com o 25 de Abril abraça o Partido Socialista.
Porquê? “Na minha vocação que já expliquei de
Economia, há uma procura de justiça social, de uma
igualdade de oportunidades, de combater a
marginalidade em que muitas se encontram, sempre
defendendo a democracia.” Nessa altura e a esse
nível, o discurso do P.C.P. não seria mais
apelativo? “Nessa matéria, sem dúvida que sim. Mas
na Faculdade convivi com pessoas dessa área política
e sabia muito bem aquilo que se passava na União
Soviética. Podia ser apelativo, de facto, mas havia
que ter os pés bem assentes no chão e conhecer a
realidade. Então como agora, continuo a defender a
democracia – dos sistemas que conheço é o mais
perfeito. Ou o menos imperfeito...”
No P.S. não exerceu cargos internos de
responsabilidade, mas, a nível autárquico, já fez um
pouco de tudo. “Fui o primeiro presidente eleito da
Assembleia de Freguesia de Vila do Conde. Não havia
maioria absoluta do PS, mas foi uma experiência
reconfortante. Nessa altura havia diálogo, entre
todas as forças políticas, incluindo o PCP, que
tinha representação. No final fizemos um almoço e
todos os partidos participaram. Foi talvez o cargo
público mais gratificante por que já passei.”
Seguiu-se a eleição para Deputado Municipal e para
Vereador “durante três anos e a meio-tempo. São
funções diferentes, mas todas elas foram exercidas
com grande prazer. ”
Vila do Conde
Assim sendo, está em posição privilegiada para
analisar a evolução de Vila do Conde desde o 25 de
Abril. “De facto estou. Sou vilacondense de
nascença. Conheci a ‘Princesa do Ave’ adormecida, no
tempo em que ser presidente de Câmara significava
andar de ‘chapéu na mão’, para que o Terreiro do
Paço desse dinheiro para o fontanário, como na
altura se dizia... Com a Lei das Finanças Locais, de
1979, as autarquias começaram a ter um poder mais
forte e capazes de resolver os problemas próximos
das populações. Mas não evoluiu só Vila do Conde,
evoluiu o País inteiro. E penso que Vila do Conde
respondeu a esta evolução.”
O P.S. está no poder há 27 anos em Vila do Conde.
Qual é a explicação que encontra para tal facto? “Um
dos aspectos fundamentais foi que, quando se
arrancou com o P.S., se recorreu quase em exclusivo
a gente de Vila do Conde. Passei por todas as
campanhas, e éramos sempre gente de Vila do Conde.
Nessa altura, cabe salientar, quem nos ajudou foi o
Dr. António Sousa Pereira, pela sua capacidade e
experiência política. Pelo contrário, as outras
forças políticas foram buscar pessoas de fora da
terra. É claro que a situação é diferente, hoje em
dia, mas a ligação às populações mantém-se e é aí
que reside boa parte do sucesso do partido. Por
outro lado, o desempenho autárquico tem sido
sufragado positivamente pelos vilacondenses, em
sucessivas as eleições, o que nos ajuda a manter um
score positivo.”
E a oposição, como é que Jorge Laranja a vê? “Desde
logo, tem algumas dificuldades emergentes da sua
própria situação. Podemos reportar-nos à Póvoa de
Varzim, onde o P.S. local também não se consegue
impôr. É natural que quem detém o poder, parte com
vantagem eleitoral. Isto porque a nossa democracia é
relativamente nova e as pessoas prestam atenção a
quem faz a obra e uma estrada que se inaugura ou uma
biblioteca nova são associadas à actividade
camarária. Mas, na minha opinião, aconteceu também
que certas pessoas que se candidatavam não tinham
credibilidade em Vila do Conde. Não se repete com
toda a gente, mas ajudou o P.S., concerteza.
Actualmente, há um natural desgaste do poder, mas se
a ligação às populações se mantiver é natural que o
actual mandato socialista seja renovado. A oposição
depende muito de quem está no poder, mas quem está
no poder depende igualmente muito do trabalho de
quem está na oposição”.
Como lê a redução de votos no Partido Socialista,
ocorrida nas últimas autárquicas? “Uma parte caberá
à conjuntura política nacional, com o desgaste
sofrido pelo P.S. no Governo. Mas não será a parte
mais significativa. Senti um certo desgaste. Veja-se
o caso do centro histórico onde foi feito um óptimo
trabalho. Mas, as pessoas, se calhar, pensaram que
haveria obras que mais significativas. E é este
desfasamento entre quem está no poder e as
populações que muitas vezes se sente. Mas é
perfeitamente recuperável se houver uma
reaproximação com as populações.
Assis e o espírito de mudança
Para Jorge Laranja, limitação de mandatos é um
assunto pacífico: “Sou a favor. Numa situação
posterior, talvez não seja necessário. Mas quando se
arranca com uma democracia, é natural que alguns
vícios de poder surjam. Não estou a falar só do caso
de Vila do Conde - em todas as forças políticas há
os chamados ‘dinossauros’. Mas a democracia ainda é
nova e esses vícios de poder trazem consequências
que me levam a dizer que será útil a limitação de
mandatos.”
E foi este espírito de mudança que o levou a apoiar
Francisco Assis? “Sim. Ele é uma figura importante
dentro do P.S., já foi líder parlamentar e é um
homem novo...” Mas tem novas ideias? “Penso que sim.
Falou nas primárias, na alteração e criação de
algumas regras de transparência, o que foi algo de
novo.” Mas estava acompanhado por algumas pessoas
claramente identificadas com o passado. “É verdade.
Eu próprio o disse muitas vezes. Perante umas
eleições, há quem escolha o ‘A’ ou ‘B’, e essas
pessoas estão ligadas ao passado. E o passado,
quando tem aspectos negativos, tem de ser assumido
por essas pessoas. E não há dúvida que algumas
estavam com Assis. Mas era mais natural que fosse um
homem novo, capaz de mudar, mesmo com esse peso
negativo atrás de si, do que um que já trazia esse
mesmo peso e era a mesma pessoa.” Há dois anos,
Jorge Laranja não apoiou Francisco Assis. Nem
Narciso Miranda. “Estava afastado da actividade
partidária durante dez anos. Tinha só o lugar de
deputado na Assembleia Municipal e mais nada.”
O aparecimento de uma lista contrária à de Mário
Almeida, presidente da Concelhia de Vila do Conde
trouxe alguma agitação ao partido. “Não vou negar
isso. Mas, sempre o disse, não estava em causa Vila
do Conde, mas a liderança da Federação Distrital. E
a minha ideia é que Vila do Conde participasse
nisso, nessa mudança. A minha aposta era que, ao
participar nisso e independentemente da escolha de
cada um, houvesse esse debate de ideias: ‘o que é
que se quer?’, ‘como é que se vai processar essa
mudança?’ eram algumas das principais questões. Da
minha parte, procurei ajudar a este debate.”
E considera que foi positivo para Vila do Conde?
‘Entendo que sim. Havia uma atmosfera onde as
pessoas parecia que tinham constrangimento em dar a
sua livre opinião. E até em termos nacionais... Essa
liberdade é uma condição basilar da democracia. Até
se pode errar e eu até admito que erro muitas vezes,
mas tem de haver a liberdade de dizer ‘eu acho que
esse caminho é melhor’. Não sou daqueles que digo
que ‘estou sempre certo’...
Política Nacional
E Ferro Rodrigues é uma boa mudança. “Portugal
precisava de um Primeiro-Ministro que tivesse
conhecimento profundo dos problemas que se arrastam
em Portugal há muitos anos. Poderá não ser um líder
carismático, cujo discurso seja facilmente
compreensível e que pratique uma atitude de ‘low
profile’, que eu subscrevo, em que não aparece
muitas vezes na televisão. Numa altura em que os
políticos andam descredibilizados até porque há
muita gente a falar demasiado de muitos assuntos,
penso que a atitude de Ferro Rodrigues dá um ar de
seriedade. Tem uma prática política diferente, que
pode não agradar a muita gente, reconheço, mas está
num bom caminho”. Acha que é o líder possível ou o
ideal para o P.S.? “Mário Soares foi o grande líder,
mas arranjaram-se alternativas. E isso é outra das
lições da democracia: há sempre alternativa! E,
muito embora não se perfilem nenhumas, elas existem.
Penso que hoje, a sua liderança é pacífica.”
Durão Barroso surpreendeu-o? “Causou-me alguma
surpresa. Politicamente é uma pessoa séria, algo que
o próprio Ferro Rodrigues já reconheceu. É um homem
com certa coragem, que está a tomar medidas que até
nem são populares. Não concordo com todas, como é
óbvio. Por exemplo: discordo da privatização dos
hospitais. Não me importo que haja hospitais
privados. Mas acho que tem de haver uma rede pública
capaz de assegurar as necessidades básicas de muita
população. Mas há medidas que eram necessárias para
o País. A dose pode não ser a correcta, mas tem
aspectos positivos. É que temos de ter a noção que
as pessoas boas, com capacidade, não estão só de um
lado, estão em todos os partidos. Um exemplo: Cavaco
Silva. Teve aspectos positivos na sua governação,
muito embora não fosse da minha ideologia política.
Quando se tem uma orientação e uma ideologia
política não se deve ser fundamentalista ou
sectário. Eu, pelo menos, tento não ser.”
Para Jorge Laranja, há um problema endémico em
Portugal. “Estamos numa Europa evoluída e Portugal
desinsere-se um pouco desse contexto. A toda a
estrutura económica em Portugal falta, acima de
tudo, organização. O melhor exemplo é o dos nossos
emigrantes que por cá ganhavam pouco e quando iam
para comunidades mais evoluídas, como a França e
Alemanha, se integravam muito bem no trabalho. Aí
não tinham a tarefa de organizar o trabalho e
funcionavam a 100%. Quero com isto dizer que o
português é tão capaz como os outros, se tiver gente
capaz de lhe organizar o trabalho.” O português
precisa, então, de um ‘Grande Líder’? “Diria que
precisa de uma liderança, ou melhor, de um conjunto
de líderes com essa capacidade.”
Pedro Brás Marques
POLIS
Outras das actividades que
ocupam o nosso entrevistado prende-se com o Polis,
de que é coordenador. “É um programa extremamente
importante para Vila do Conde. O Parque Urbano, uma
das obras previstas já arrancou. Trata-se de uma das
faltas que eu apontava à cidade era esta: faltava um
espaço aberto, com árvores, para lazer, que desse
‘pulmão’ a quem quisesse ir passear e descansar. A
requalificação da Frente Atlântica vai, também, ser
emblemática para a cidade. Julgo que é algo de
pacífico, entre todas as forças políticas”.
Fazer parte do Polis foi, para Jorge Laranja, uma
grande honra. “Quando fui convidado manifestei logo
a minha disponibilidade, porque acho que é um
projecto que pode criar uma grande empatia com a
população, o que já se nota na zona das Caxinas.”
Mas esta intervenção não acentuará mais a diferença
entre a Vila do Conde-cidade e a Vila do
Conde-concelho? “Sou da cidade, mas tenho raízes no
concelho, em Tougues. É claro que o Polis só podia
ser feito na cidade. Seria ideal estendê-lo às
freguesias, mas isso implicaria outras verbas e
outras importâncias.” Mas as assimetrias não se
acentuarão? “É um bocado complicado... Na verdade,
são espaços que estão mais próximos do habitante da
cidade. Mas não podemos esquecer que qualquer
vilacondense pode e vai usufruir desse espaço. Veja
a Avenida Atlântico que, ao Domingo, é percorrida
por imensa gente que é do concelho. Se aquele espaço
melhorar, toda esta gente beneficiará dessa
melhoria. Falar e, assimetrias é sempre uma questão
difícil. Olhe-se para Paris. Tem vantagens em
relação a todo a França. O mesmo com Londres e a
Inglaterra. É muito difícil que o desenvolvimento se
faça de forma uniforme, até porque as pessoas tendem
a concentrar-se em grandes aglomerados urbanos.”
Nesse sentido, não acha que a parte Norte está mais
ligada à Póvoa e a Sul a Matosinhos e Maia? “Sabemos
que nas Caxinas e é natural, muita gente está mais
ligada à Póvoa. É uma questão geográfica, de
proximidade e de acessibilidades. No Sul não sinto
tanto isso, se bem que muitos estudantes de Aveleda
ou Vilar do Pinheiro ou, até, de Labruge, estudem no
concelho vizinho. Mas, volto a dizer, é um problema
geográfico, de quilómetros. Se vivesse em Vilar do
Pinheiro, equacionava a hipótese, pensando no meu
filho, entre colocá-lo na escola secundária em Vila
do Conde ou no concelho vizinho. É óbvio que não
pode haver dessas escolas em todas as freguesias...”
Assembleia Municipal
Jorge Laranja é líder da
bancada socialista na Assembleia Municipal.
“Honestamente, o seu poder de fiscalização, que é a
sua actividade principal, é algo de complicado,
porque é feita sempre ‘à posteriori’. O executivo,
por vezes, tem argumentos que chegam tarde à
Assembleia Municipal. Sou das pessoas que mais
intervenho no Plano de Actividades e Orçamento, mas
não tenho quase ao meu dispôr os documentos, como
nenhum membro da Assembleia Municipal tem. Quando
fazemos uma apreciação, é uma fiscalização política,
muito geral, e não em pormenor. E porquê? Porque não
há condições materiais para o fazer e porque seria
muito difícil a disponibilização de membros da
Assembleia Municipal, que têm empregos e horários,
para terem tempo para analisarem os documentos.” De
um ponto de vista global, tudo está bem. “A
Assembleia Municipal vai exercendo as suas funções,
vai procurando dignificá-las. A oposição vai
constestando, o que é sadio e democrático, tal como
é natural a defesa do executivo, por parte da força
que o apoia. Penso até que seria salutar que os
munícipes assistissem mais às reuniões da Assembleia
Municipal.”
Jorge Laranja lamenta a pouca participação dos
deputados, que se resumem a três ou quatro das
principais bancadas. “Na minha área, nas reuniões
preparatórias, tenho chamado a atenção para isso.
Gostaria que houvesse mais intervenção de toda a
gente. Às vezes nem queria intervir, mas vejo-me
obrigado a fazê-lo. Há pessoas que têm receio de
falar, mas deviam perdê-lo. Porque, mesmo que lá vão
e cometam algum erro, não devem sentir receio de
falar, sem esquecer, claro, que um deputado
municipal deve estar minimamente preparado. Quanto
mais alargada a Assembleia Municipal estiver, mais
os cidadãos se sentem melhor representados.”
E quanto ao diálogo entre a vereação e a Assembleia?
“Quando há um forte pendor maioritário, as
Assembleia Municipais funcionam em diapasão com o
executivo. Acho que a discussão devia ser mais
alargada, não sei se no âmbito da própria Assembleia
ou, até, fora dela. Se se limitarem a fazer
‘aprovação’ ou ‘rejeição’ ficam muito limitadas.
Podia até haver Assembleias Municipais dedicadas a
um tema específico, a Habitação Social, por exemplo.
Mas nos termos em que estão legalmente estruturadas,
não sei se isso será fácil...”
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